Com a redução dos investimentos, a rolagem de dívidas foi o principal objetivo das companhias que acessaram o mercado de capitais durante 2015 e a expectativa é que o quadro seja semelhante em 2016 – com alguma chance de melhora caso o cenário político fique menos tenso.
Do total levantado com emissões de debêntures de janeiro a novembro do ano passado, último dado disponível, 58,3% foram para refinanciamento de passivos, recompra ou resgate de outros títulos – fatia 8,7 pontos percentuais acima da registrada em 2014, de acordo com dados da Anbima. Na sequência, 19,2% dos recursos obtidos foram destinados a capital de giro.
As emissões em andamento e as concluídas recentemente tiveram a finalidade de levantar caixa para refinanciar passivos e também recompor o capital das companhias. A Cemig Distribuição tem uma oferta de debêntures em andamento no valor de R$ 1,6 bilhão e o montante deve ser usado para o resgate antecipado facultativo de R$ 1,7 bilhão em notas promissórias, pagamentos de outras dívidas e reforço de caixa. A BR Malls também planeja realizar uma emissão de R$ 200 milhões com a mesma finalidade, assim como fizeram Comgás e Eletropaulo.
De acordo com o executivo de um grande banco que preferiu não ser identificado, a maior parte dos recursos das emissões de debêntures esteve focada na rolagem de dívidas porque poucas empresas estão com forte geração de caixa e, por isso, não desejam aumentar a alavancagem para investir.
Sem considerar as emissões de debêntures de infraestrutura, destinadas exclusivamente ao desenvolvimento de projetos e que possuem benefícios fiscais para pessoa física, o volume dirigido à rolagem seria ainda maior. De janeiro a novembro, R$ 4,22 bilhões foram emitidos em debêntures de acordo com a Lei 12.431, com leve alta de 3% na comparação comparação com o mesmo período do ano passado.
“Houve uma queda abrupta na oferta de títulos por conta da menor confiança do empresariado. Além disso, em momentos de crise, os investidores ficam mais seletivos e acabam optando por operações com risco menor”, explica Leandro Miranda, diretor-gerente do Bradesco BBI, ao citar que companhias com rating “AA” e “AAA” foram a mercado.
Para outro especialista, que preferiu não ser identificado, no passado empresas com rating “A” conseguiam acessar o mercado, mas hoje não encontram demanda para seus papéis.
Em 11 meses, as emissões totais de debêntures recuaram 27,5%, para R$ 46,5 bilhões.
Além do risco menor, ao longo do ano o espaço para novas emissões diminuiu e os investidores passaram a exigir maior taxa de retorno em títulos remunerados sobretudo pela taxa interbancária (CDI), por conta da volatilidade dos juros, e com prazos menores, entre três e cinco anos. Miranda destaca ainda que houve migração de investimentos de pessoa física para títulos com incentivo fiscal, como CRAs, CRIs e debêntures de infraestrutura.
A expectativa dos bancos que estruturam emissões de dívida é que 2016 siga com o mesmo ritmo, com alguma chance de ser um pouco melhor. Os especialistas citam também a possibilidade de acontecer um “rali” pelos títulos brasileiros caso a crise política se resolva.
“No momento em que tiver condições de retomada da confiança do empresariado, tem boa chance de ter um rali de Brasil. Por isso, recomendamos que as empresas se antecipem. Achamos que o primeiro trimestre pode ser precursor de algum evento importante com ponto de inflexão e, assim, ter uma corrida pelos títulos”, afirma Miranda, do Bradesco.
Fonte: Valor